terça-feira, 27 de junho de 2017

O vício da vida virtual

A tecnologia pode ser bem útil para facilitar a comunicação entre  pessoas. Está cada vez mais barato sem comunicar com alguém em qualquer parte do mundo. A internet e os aparelhos eletrônicos estão cada vez mais modernos e acessíveis a todas a parcelas da população. Tudo isso facilita o contato entre as pessoas, mesmo que distante fisicamente uma das outras. Tudo isso poderia aproximar cada vez mais as pessoas uma das outras.
Poderia aproximar, mas a facilidade de comunicação está tendo um efeito exatamente o contrário: está diminuindo o contato físico e emocional entre as pessoas. O que deveria ser motivo de aproximar as pessoas enquanto elas estão fisicamente afastadas uma das outras, está  é aumentando a distância emocional entre as pessoas.
O prazer em ver imagens coloridas e ter acesso aos mais diversos tipos de conteúdos escolhidos pelo próprio usuário, faz com que essa tecnologia de comunicação perca sua finalidade inicial que seria a comunicação entre as pessoas. O que deveria aproximar está sendo motivo para afastar.
Não é preciso andar muito para ver alguém entretido com seu aparelho de imagens coloridas e hipnotizantes. A concentração é tanta que esta pessoa não vê quem passa ao seu lado ou acha perda de tempo conversar com um conhecido. Em vez das pessoas fazerem visitas para saber como a outra está, prefere vasculhar as redes sociais para saber o que seus amigos andam fazendo. Nas fotos, as pessoas estão sempre bem de vida e de bem com a vida; as relações amorosas, familiares e sociais estão sempre em alta; a felicidade predomina. Na vida real a realidade é outra.
O mundo virtual é realmente alienante, tira a pessoa da realidade de forma gradativa. Ter acesso a internet para a ser uma necessidade básica, como beber, comer, dormir e fazer sexo. Aliás, até a vida sexual passa a ser afetada. Quantos casais que, ai terminarem de ter relações sexuais, pregam logo seu aparelho para não perder nenhuma novidade de seus grupos sociais?
 Whatssap caiu no gosto popular. Quem não está conectado a ele, está socialmente marginalizado. Assim como em outras redes sociais, no Whatssap só permanece nos grupos que pensar exatamente igual aos demais, qualquer sinal de divergência do pensamento dominante não será tolerado e haverá rejeição a ponto do divergente ter que se retratar publicamente ou ser banido ou exilado do grupo. A liberdade nesses grupos resume-se a: dobrar-se ao pensamento da maioria ou ser sumariamente excluído. Embora seja um aplicativo útil para uma comunicação imediata com grupos de trabalho, de estudos e familiares, se o zap ou zapzap (como é carinhosamente chamado) não for utilizado com limites, ele passa a ser a própria razão de seu uso e não apenas mais um meio de comunicação. Ele, como outras redes sociais e entretenimentos virtuais, também viciam. Não são apenas os jogos eletrônicos, os vídeos pornôs, as novelas e seriados de televisão que causam dependência, Whatssap também dependência semelhante ao uso de entorpecentes.
Esse vício eletrônico faz com que os contatos virtuais percam sua finalidade que seria comunicar, e passa a ter outra finalidade: Exibição pública. Todos que participam dele querem compensar sua baixa autoestima através de imagens de felicidade e sucesso amoroso ou social. As pessoas nunca estiveram tão isoladas, mesmo com tanto acesso a comunicação. A alienação é geral e quase uma regra social não-escrita. E o que sobra além dessa dependência tecnológica? Sobra sexo sem razão e sem satisfação duradoura eo consumo de álcool cada vez mais excessivo. Todas as camadas e faixa etárias da população então envolvidas com o consumo de bebidas alcoólicas, de uma forma ou de outra. E quando o vazio provocado pelo mundo virtual não pode mais ser satisfeito com o consumo de bebida forte, aí chega a vez do uso de drogas pesadas e da consequente violência ligada a ela. Mas como uma população alienada vai conseguir ligar os pontos entre carência emocional, desestrutura familiar, vazio da vida virtual, consumo de bebidas alcoólicas, sexo  promíscuo, uso de entorpecentes e violência?
Com tempo precioso que se perde em ficar se atualizando virtualmente da vida alheia, deixa-se de telefonar para alguém, marcar um encontro ou mesmo fazer uma visita. Além disso, existe tanto a ser feito, exercícios físicos, aulas de dança, artesanato, cursos profissionalizantes, graduações e pós-graduações, viagens, cinema, praia, conhecer novas pessoas, fazer amizade com pessoas de bem com a vida. Existe tanto o que se viver neste curto espaço que existência que temos que, uma hora perdida no mundo virtual torna-se irrecuperável.
Não podemos esquecer que a população continua sendo alienada pelos setores dominantes da sociedade e a capacidade de leitura e interpretação de texto esta muito baixa. Alguém que escreva uma frase sem erros grosseiros de português que logo esta visto como um esnobe que quer humilhar as pessoas. O nível cultural continua a ser nivelado por baixo e qualquer um que pense em melhorar seu nível de pensamento será hostilizado ou ignorado.
Não devemos ser saudosistas e presos ao passado. Se assim fosse, estaríamos sem os benefícios de luz elétrica, em nome do romantismo do jantar a luz de velas, ou ainda estaríamos na época das correspondências de papel entregue pelo carteiro. Uma notícia levava duas até chegar para nós. Mas não devemos nos deixar dominar pela tecnologia a ponto de esquecer compromissos sociais ou perder o interesse pelo trabalho que dá sustento e dignidade ao ser humano.

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